Depois de 20 anos, balança do país tem novo déficit
Pela primeira vez em 20 anos, a Argentina voltou a ter déficit na balança comercial de petróleo e derivados, em 2010. O fim da autossuficiência de energia, após uma década sem investimentos relevantes em exploração, deverá tornar-se oficial nos próximos dias, tão logo sejam detalhados os números do comércio exterior em dezembro.
Nos 11 primeiros meses do ano passado, as exportações argentinas de combustíveis chegaram a US$ 3,034 bilhões, diminuindo 9,8% em relação a igual período de 2009, segundo a consultoria IES. Já as importações, turbinadas pelo desabastecimento de gás no inverno e pela disparada do consumo doméstico de derivados, aumentaram 76,8% e atingiram US$ 3,283 bilhões. De um superávit de US$ 1,5 bilhão na conta-petróleo, que já era inferior aos saldos obtidos durante as duas últimas décadas, a Argentina passou a ter déficit de US$ 249 milhões.
Em dezembro, uma boa notícia foi celebrada pelo governo e por empresários: a descoberta de uma nova “megarreserva” de gás não convencional pela ex-estatal YPF (controlada atualmente pela espanhola Repsol) na Província de Neuquén. São reservas estimadas em 127 bilhões de m3, em rochas (xisto) e areias betuminosas, com alto custo e de difícil extração. A empresa anunciou que isso seria suficiente para aumentar suas próprias reservas de seis para 16 anos, mas o panorama é tido como incerto por analistas.
Essa nova situação energética encerra um período em que o país não só atendia com folga sua demanda interna, mas alimentava muitos de seus vizinhos, como o Brasil, a ponto de o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ter determinado o aumento das importações brasileiras de petróleo da Argentina, na segunda metade dos anos 90, para equilibrar as relações comerciais dentro do Mercosul.
De lá para cá muita coisa mudou, mas viu-se claramente que algo estava errado quando motoristas enfrentaram longas filas e várias horas de espera para abastecer seus automóveis, nos postos de gasolina de Buenos Aires e do interior, às vésperas do Ano Novo. Uma greve de poucos dias dos petroleiros em polos produtores da Patagônia bastou para deixar o abastecimento à beira do colapso na Argentina.
Hoje, o país extrai 617 mil barris por dia, pouco menos de um terço do que produz a Petrobras no Brasil, o que representa uma queda de 1% na comparação com o ano anterior. Segundo a IES, isso sinaliza a continuidade da “trajetória descendente que levou a produção a situar-se 11,2% e 20,7% abaixo dos níveis de 2004 e de 2001, respectivamente”.
Uma explicação sempre levantada pelos analistas são os baixos estímulos à exploração, devido à política tributária aplicada ao setor pelos governos de Néstor e Cristina Kirchner, desde 2003. Além da carga tributária anterior, foi definido um imposto sobre as exportações de petróleo bruto que chega a 45%.
A autossuficiência argentina na extração petrolífera foi alcançada entre 1990 e 1991, quando o país rapidamente tornou-se exportador líquido de combustíveis. Em 1998, atingiu o pico de produção, com 827 mil barris por dia. Hoje ainda vende petróleo ao exterior, mas importa derivados, como óleo diesel. Em março, a YPF importou gasolina pela primeira vez em 30 anos.
“A forte evolução registrada (das importações do país) é, em boa parte, reflexo da maior atividade do setor agrícola – pelo aumento das colheitas – e da recuperação da atividade econômica argentina, que aumentou a demanda do principal combustível, o óleo diesel, junto com uma capacidade instalada local insuficiente para observar a demanda interna”, aponta um relatório da consultoria IES.
O que também puxou as importações foi o déficit na produção de gás, principalmente no inverno, quando o abastecimento é deslocado para as residências. Muitas indústrias tiveram que reduzir suas operações em julho e agosto.
Em 2008, o governo argentino resolveu importar oito navios cheios de gás natural liquefeito (GNL) para complementar a produção local e evitar racionamento no inverno. Era para ser uma solução temporária, mas ela se consolidou. Em 2010, foram 21 navios. Neste ano, estão previstos pelo menos 46.
Também têm sido cada vez maiores as importações argentinas de óleo combustível, principalmente da Venezuela, para acionar usinas termelétricas.
Fonte : Site Sindiex